A minha jardineira e a sua blusa social

01:22 Igraínne 0 Comments



Uma vez, quando eu era pequena, ouvi minha mãe contar à minha tia sobre o que uma vidente tinha visto nas cartas do seu futuro. Supostamente, à época, eu não tinha uma opinião verdadeiramente formada a respeito desse tipo de coisa - hoje ainda não tenho -, mas me lembro, como se fosse hoje, de uma frase bem específica na voz da minha mãe, uma frase que jamais esqueci: "ela [a senhora das cartas] me disse que o meu amor viria de longe. De bem longe".

Recentemente estive confabulando com meus botões acerca de especificidades. Muitos dizem que futuros de pessoas semelhantes se entrelaçam. Minha mãe (ainda) não parece ter conhecido o homem que viria de longe. Da mesma maneira curiosa, somos imensamente parecidas. Após muito refletir a esse respeito e depois de lembrar, de maneira vaga, o modo como as mulheres buscam loucamente por previsões (somos a parcela intuitiva da humanidade), cheguei à conclusão de que o amanhã dela pode, quem sabe, ter esbarrado no meu. 

Who knows

Dentro de uma percepção irracional, olhava pra aviões com pavor. Ainda o faço. Mas percebi que dá para ter mais coragem quando alguém verbaliza palavras de conforto. E falo daquele conforto. Cheguei a achar, por mais de uma vez, que o tão tão distante não fosse tão distante assim: um avião para São Paulo era rápido. Uma passagem de ônibus para fora do estado é fácil. Era a ponte-aérea mais fácil do mundo. E é. Possivelmente isso ficará registrado para sempre. Uma das poucas cicatrizes que valeu a pena guardar - na verdade, a única. 

Ironicamente, é engraçado como sempre "aquele que vem de longe" está fadado a dar errado. É muito óbvio como a coisa torna-se autoexplicativa. Talvez mapas sejam inventados, talvez os limites traçados pelo homem sejam meras subjetividades ou desculpas construídas para tornar o fim mais confortável. Talvez.

Maybe yes, maybe no

Mas talvez não.

O que são seis horas num ônibus para quem pega dez horas de avião? Há um oceano inteiro, um espaço inteiro, repleto de fobias superadas por um único fim que nem mesmo está certo. Camisas sociais de todas as partes do planeta. Pulseiras de quarenta países, marcas permanentes de chuva ácida. Dedos quebrados. Sotaques que se assemelham, línguas que se complementam. Meu terninho e o seu fato. A obra inacabada. Interminável, Inalterada.

O martelo martela uma martelada e eu, desequilibrada, vou-me junto em uma única guinada. Uma narrativa bem mal contada. 

Talvez eu tenha subjugado minha força de vontade. Minha persistência. Meus desejos, Talvez eu tenha questionado a cor dos meus olhos, a minha altura, a minha escassa alegria, minha casca insegura. Talvez eu tenha chorado demais pelos meus jeans rasgados, pela minha jardineira roubada. 

Ou, simplesmente, não. Ninguém nunca me disse que as visões eram críveis. E mesmo que fossem, elas não foram ditas para mim.

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